A que distância estamos do chão?


Recentemente, fiz um trekking no Parque Nacional de Itatiaia - RJ, com alguns trechos de “escalaminhada” – aquele tipo de caminhada em que todo apoio é bem-vindo. Esse é um passeio que recomendo a qualquer um que aprecie uma belíssima paisagem e tope algum desafio.

Próximo ao topo do Pico das Prateleiras, eu e meu marido nos deparamos com um “congestionamento humano“: um grupo de cerca de 10 jovens que cuidadosamente se aproximavam do destino final pelos caminhos estreitos da trilha. Esse trecho de caminhada nas pedras chama muita atenção. A demanda de esforço não é alta. Mas é preciso cuidado para se deslocar sob, sobre e entre as pedras, por conta do abismo existente.

Observando o grupo de jovens, era clara a diferença dos que praticavam algum tipo de exercício físico e os sedentários. Era o desembaraço de uns, versos o medo paralisante de outros. Numa das paradas forçadas desse congestionamento, conversei um pouco mais com uma das meninas que estava com bastante dificuldade e ela me disse: “Não é a falta de flexibilidade das pernas para passar de uma pedra a outra, tampouco a falta de força nos braços. Meu corpo simplesmente não vai, não sei o que fazer.” - Para minha surpresa, ela não era sedentária.

Percebi ali, que a dificuldade era semelhante à montagem de um quebra-cabeças – mas naquele caso, as peças eram os movimentos que precisavam ser feitos com o corpo todo para conseguir passar de um ponto a outro. Curiosamente, quase ninguém sentava, mesmo nos trechos com descidas. Comecei a sugeri então que usassem seus ABS (abaixa a bunda e senta) – em algum momento aprendi isso com algum guia, também numa condição de paralisia.

Essa situação me trouxe à memória, o tempo em que morei na Coréia do Sul (2004). Em meio a um abismo de diferenças culturais, os sanitários sem assento eram bem comuns por lá. Me surpreendi numa breve passagem pelo hospital, (numa intoxicação que minhas pernas mal podiam me sustentar) me deparar com ZERO vasos sanitários com assento. Com a naturalidade de criança, vi algumas idosas que estavam internadas, usavam o sanitário no chão, agachadas fazendo suas necessidades sem o menor constrangimento ou dificuldade – sim, elas mantinham a porta aberta caso precisassem de ajuda.

Era comum por lá, encontrar pessoas no tradicional “cócoras” num momento de descanso - em todas as faixas etárias imagináveis. As mesas baixas dos restaurantes, as vassouras de cabo curto, os quartos sem cama, apenas com colchonete fino, – foi lá que comecei a entender que dormir no chão é necessariamente algo ruim. Uma cultura diferente da nossa, com uma demanda de movimento diferente, com resultados proporcionalmente diferentes.

Constantemente faço a reflexão daquilo que ofereço aos alunos que me procuram. São pessoas que na maioria das vezes chegam até mim com alguma dor de ordem mecânica. Em geral, são dores associadas à falta de movimento, ou ainda, falta de organização do movimento – que melhoram à medida que são oferecidos estímulos corretos, aumentando a integração das áreas, tendo como resultado a eficiência do todo.

Apesar do fator individualidade ser o carro-chefe de um atendimento particular, existe uma proximidade enorme nos casos ,que acredito eu, ser reflexo da cultura na qual estamos inseridos. Me arrisco aqui a apontar três causas que vejo muito:

- quanto à consciência corporal: dificuldade de perceber-se enquanto ser provido de corpo. Em decorrência disso, deixa de perceber o excesso de esforço que submete algumas áreas, reduzindo movimento, gerando cada vez mais tensão. É a inabilidade de relaxar. São tantas informações e tantas regras, que o indivíduo precisa até precisa de posição certa para dormir. Toda vez que ouço isso, penso que como, no descanso, com redução do tônus, deitado, pode haver dor ao acordar? Alguma coisa ali não se comunica bem. Vejo isso como uma redução na capacidade de auto ajuste. Sem o estímulo certo, sem sinergia necessária entre as áreas do corpo, o indivíduo vira refém de toda parafernália da indústria do sono.

- robotização dos gestos: dentro de uma rotina, os movimentos são sempre os mesmos e acontecem como se o indivíduo estivesse dentro de uma caixa. Para piorar, tantos mitos das práticas corporais do “isso pode, isso não pode” que rouba a naturalidade de experimentar e descobrir até onde é possível chegar;

- fragilidade: o excesso de conforto também rouba do indivíduo a capacidade de adaptação. Aos poucos, torna-se extremamente desconfortável andar descalço, as mãos são tão frágeis que não suportam nem o peso do próprio corpo; a falta de destreza - muitas vezes, fruto de um desenvolvimento motor pobre - transforma pequenas quedas em sérias fraturas ou entorses.

Considero, em termos muito mais simplistas do que a ideia merece, que o corpo humano é perfeito, principalmente no que diz respeito à capacidade de adaptação. Um processo de evolução lento, delicado e preciso. Diante disso, me pergunto quais foram as mudanças que nossa sociedade passou, para que houvesse tamanha condição de engessamento. O que mudou? Se temos uma estrutura refinada como essa, por que não está funcionando bem em tanta gente? Algumas culturas conseguem manter seus idosos flexíveis e ativos. Quais são as práticas diárias dessas pessoas ao longo da vida?

Em meio a essa reflexão, recebi um texto muito interessantes de uma amiga, também professora de educação física, que fala sobre a esquecida arte de agachar. O texto discute a importância dessa habilidade, do ponto de vista da preservação morfológica e estrutural. Traz também alguns apontamentos históricos que fizeram essa distância com o chão aumentar: as cadeiras e mais tarde, a invenção dos vasos sanitários com assento. Além disso, autora discute alguns aspectos culturais de se aproximar do chão - Ir para o chão, nos dias de hoje, parece algo completamente inadequado, principalmente no ocidente. Imagine a cena: um adulto em um shopping center cheio, que resolve sentar no chão rsrs! Seu eu visse, iria até o indivíduo para saber se estava precisando de ajuda, rsrsrs.

Enfim, inúmeros exemplos para dizer que tanta busca pelo conforto e tantos paradigmas culturais nos rouba a capacidade de adaptação. Tudo precisa estar perfeitamente adequado a nós. Do contrário, machuca. Penso eu que esse excesso de fragilidade é como uma bola de neve, só aumenta e atrapalha muito. Vale lembrar que a teoria da evolução das espécies de Darwin fala justamente da capacidade de adaptação dos seres – é isso que garante a sobrevivência.

Penso então, ser coerente estudar nossa capacidade de adaptação, também no que diz respeito ao movimento, às mudanças do meio em que estamos. O chão está pertinho – ou pelo menos, deveria estar! Usar os pés, as mãos, joelhos, sentar no chão – para facilitar o deslocamento, faz parte de uma intimidade com a própria estrutura, com o próprio movimento.

Aproxime-se de si mesmo, do que é capaz de fazer.

THE FORGOTTEN ART OF SQUATTING IS A REVELATION FOR BODIES RUINED BY SITTING -

Rosie Spinks, November 9, 2017

https://quartzy.qz.com/1121077/to-solve-problems-caused-by-sitting-learn-to-squat/

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