Arrastar o pé, pode?

Em Julho desse ano, eu, meu marido e mais três amigos, fizemos um trekking maravilhoso: a travessia do parque nacional dos Lençóis Maranhenses. Foi uma experiencia única em minha vida. O percurso começou em Canto de Atins e terminou em Santo Amaro – com a duração de três dias no total.

Quando recebi a indicação desse passeio, fiquei muito empolgada com a idéia de andar a maior parte do tempo descalça – afinal de contas, a mistura de areia e água dentro de um tênis não faz muito sentido 😉.

E assim fomos – mochila enxuta, um par de chinelos (para os trechos com vegetação rasteira) e um rolo compacto de liberação miofascial.

Iniciávamos a caminhada por volta das 3h da manhã e encerrávamos por volta das 12h – por conta da intensidade do sol! Voltávamos para as dunas no final de tarde para contemplar o pôr-do-sol.

Animada com a ideia literal de colocar o pé na trilha, abandonei os chinelos assim que a vegetação acabou. Para minha decepção, a “bateria” dos meus fibulares duraram só 6horas... e logo, uma dor chata no pé começou a me incomodar...

Fiquei frustradíssima – primeiro porque eu vivo descalça (dando aula e em casa também) e segundo, porque os pés são meu principal objeto de estudo: dinâmica de desaceleração, amortecimento, manutenção da mobilidade dos arcos, força de estabilização... ufa! Fiquei triste mesmo... mas... engoli o orgulho, improvisei uma liberação dos músculos da perna na primeira duna dura que consegui, e nos dias seguintes, com os maravilhosos amigos que tenho, emprestei o crocs de um e dividi minha carga com os outros. Sem eles, não teria conseguido terminar a travessia.

Mais tarde, um dos meus amigos me chamou a atenção para o tipo de pisada que o nosso guia tinha: leve, quase nem afundava e um detalhe que fez meu pensamento se expandir: o pé dele arrastava ao abordar o chão. Sem propulsão. Sem dedão empurrando o movimento final. Leve. Realmente suave e arrastando.

Depois disso, refleti muito sobre o conhecimento e capacidade de adaptação do ser humano. De como as possibilidades oferecidas pela nossa estrutura nos levam mais longe e tornam a vida possível. Sobre a verdadeiro movimento eficiente e uma propriedade inata de conquistá-lo. Do quanto sei pouco...

A história da pegada não acabou por aí. Conversando com o guia – Joel, o nome dele – percebi o quanto essa leitura das pegadas na areia faz parte da cultura local. Ele era capaz de reconhecer a pegada de uma turista e um guia de lá. Reconhecia a pegada da fauna local. Lendo as pegadas na areia de um grupo que saiu um pouco mais cedo que o nosso, percebeu que de repente uma pegada começou a voltar – e concluiu que algum desentendimento devia ter acontecido e um dos guias resolveu voltar. Foi muito engraçado...

Meu pé já está 100%. Voltou esfoliado, liso – como a muito tempo não o via :-D. E para aqueles que se interessarem em fazer a travessia: crocs e uma meia de neoprene foi a opção mais votada pelos participantes – ou descalço para os verdadeiramente adaptados.

A propósito, arrisca advinhar qual é o guia na imagem?

Pegadas na areia durante a trilha

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